“Moçambique é responsável por menos de 0,2% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas é aqui que a conta das mudanças climáticas chega mais cara”

Eu ia começar de outra forma esse post, relatando um pouco desta terceira semana em Maputo, rica em arte e contatos humanos. Pensei em abrir de uma forma leve, como têm sido os meus dias. Mas, minutos antes de sentar à mesa para iniciar o texto, essa frase pronunciada em um programa da STV, um dos principais canais de televisão moçambicanos, me pegou desprevenido e alterou por completo minha rota de pensamento.

A crise climática é, sobretudo, uma continuidade perversa do “velho tema” das desigualdades, todos sabemos. Não é uma crise “natural”, que atinge de forma igual diferentes povos e regiões. Claro que não. Afeta desigualmente, especialmente aqueles que historicamente têm custeado o “desenvolvimento” alheio. Eu sei que, a essa altura, isso é o óbvio ululante. Mas o dado em si é forte: Moçambique produz uma fração de apenas 0,2% dos gases de efeito estufa globais e, ao mesmo tempo, é um dos dez países mais atingidos pelas mudanças climáticas. Em 2019, conforme me conta a especialista Telma Manjate, o país figurou no topo dessa lista.

Grupo de mulheres lavam roupa na beira de um rio
Foto de Yassmin Forte*

Telma me recebeu em sua sala, no Ministério da Agricultura e Ambiente, na região central de Maputo, na última semana. Tivemos uma longa e agradável conversa, em que ela me apresentou um panorama sobre a situação ambiental no país. Gostaria de dedicar o post de hoje para trazer alguns recortes dessa entrevista.

Com a autoridade de quase três décadas de experiência em pesquisas e atuação técnica no tema, seja no ministério, seja em organismos como as Nações Unidas, Telma atualmente se dedica a uma missão especial: a inserção das mulheres e das questões de gênero nos debates sobre o clima em Moçambique.

“A mulher rural é quem busca água, lenha, quem garante a segurança alimentar e, portanto, é mais fortemente impactada pela escassez de recursos. Mas seus desafios específicos são invisibilizados. Apesar de central nas dinâmicas familiares, ela não é ouvida”, observa.

Ela mesma admite que não considerava esse um tema prioritário até recentemente, quando foi convidada a compor uma equipe para atualizar a Lei do Ambiente, integrando a dimensão do gênero. Ali, compreendeu que esta é uma questão primordial e deve ser considerada na formulação de políticas, estratégias e programas. E tem ajudado essa compreensão a avançar no país, dentro do próprio ministério.

Atualmente, este é o tema de seu doutorado, que desenvolve na Universidade de Brasília (UnB), num caminho muito comum de intercâmbio entre pesquisadores moçambicanos e instituições acadêmicas brasileiras – caminho que agora me orgulho também de fazer parte, na via inversa.

Mulher morena de óculos e cabelo curto vestindo terno e sentada em uma cadeira dentro de um escritório
Telma Manjate

Há razões de natureza geográfica que explicam a exposição de Moçambique aos eventos extremos: o país está localizado à beira do oceano Índico, mais propenso a ciclones, e possui zonas sujeitas a secas prolongadas. Mas Telma acredita que estes não são os fatores preponderantes para a crise.

“O que agrava essa exposição são fatores não climáticos: pobreza, desigualdade de gênero, analfabetismo, fraca articulação institucional, e uma desconexão entre a academia e o setor público”, enumera.

Esta situação agrava um cenário social complexo, com elevado nível de insegurança alimentar – a fome, esta palavra dura, que é a última expressão que eu gostaria de utilizar em um texto sobre Moçambique, dado todos os estigmas, estereótipos e “histórias únicas” reinantes no imaginário sobre o continente; mas que também é uma realidade inescapável. Há fome.

Na última semana, o governo local lançou uma nova Política e Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional. O objetivo é reduzir, até 2030, o altíssimo índice de 37% das crianças menores de cinco anos com desnutrição crônica (eram 43% há dez anos). Atualmente, estima-se que cerca de um milhão e meio de moçambicanos vivam em situação de insegurança alimentar. O investimento previsto pelo programa é de algo equivalente a R$ 40 bilhões de reais. Chequei a conversão algumas vezes antes de prosseguir.

As situações mais críticas se encontram nas regiões do centro e norte do país – eu estou no sul. Mas também aqui existem zonas em que se pode ver e ouvir o impacto desta crise nas comunidades locais, especialmente aquelas dedicadas à agricultura de subsistência. A partir dessa semana, devo começar a percorrer regiões como Boane, Manhiça, Gaza, Chibuto e outras mais onde meus pés alcançarem, guiados por verdadeiros amigos e irmãos que tenho encontrado aqui.

Gente tão parecida comigo, tão familiar em suas alegrias, dores e esperanças. Gente que ri muito, que abraça com sinceridade, que dança. Nas barracas (bares) das periferias da cidade, tomando uma 2M (a melhor cerveja do mundo, eles dizem e eu confirmo), ouvindo rap, marrabenta, músicas sulafricanas e um punhado de inesperadas canções brasileiras. Estou em casa.

Cerveja sobre mesa de bar

Por isso (finalizando esse post já enorme de hoje) faço questão de falar com muito carinho, respeito e aprendizado desta casa. Essa pesquisa, como eu já disse no primeiro post, se dedica a olhar para um cotidiano duro, mas para buscar especialmente as soluções e tecnologias sociais que estas comunidades têm construído para lidar com essa realidade. As saídas para a crise serão construídas por essas mãos.

A comunicação tem ocupado um espaço central nas dinâmicas de prevenção, por meios dos avisos meteorológicos e troca de informações entre a própria população. Também técnicas como o uso de sementes de ciclo curto ou a adoção de blocos queimados para a construção das casas, tornando-as mais resistentes aos ciclones.

Órgãos governamentais, internacionais e mesmo a academia têm auxiliado nestas medidas. Contudo, o conhecimento local, histórico, ancestral ainda é a chave-mestra para a resiliência, como explica Telma, a quem sou imensamente grato por todo conhecimento compartilhado:

“As comunidades têm seus próprios sinais, observam a natureza: a quantidade de papaia, o vento, os elefantes – estes já quando a situação é extremamente crítica. A academia e o governo deveriam compreender melhor esses saberes locais”.

Eu sigo aqui, atento aos sinais, buscando compreender tudo o que este país tem a me dizer.

*A foto que abre esse post é da fotógrafa e ativista social moçambicana Yassmin Forte. A imagem foi registrada na exposição Inter-diáspora, com artistas de Moçambique e do Brasil, no Instituto Guimarães Rosa, em Maputo.

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