Capa do livro entre a fome e a desinformação

Entre a fome e a desinformação: muitas pontes entre Brasil e África

Por:
MARIALVA BARBOSA
ANA REGINA RÊGO
IGOR SACRAMENTO (in memoriam)
ANA GOULART DE ANDRADE

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

Apresentação

Entre a fome e a desinformação: muitas pontes entre Brasil e África é o nome síntese escolhido para denominar um livro, que é resultado direto do esforço conjunto que procurou construir diálogos sobre a questão da fome, das crises climáticas e da desinformação, sobretudo, no Brasil e na África.

Este diálogo foi inicialmente apresentado em dois congressos realizados, em setembro de 2025, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Os congressos tiveram como foco o enfrentamento à fome e à desinformação a partir da convergência de dois grandes projetos de pesquisa internacionais que constroem articulações de diversas instituições brasileiras com universidades da África, (Cabo Verde, Moçambique, Nigéria e África do Sul), da Europa (Portugal e Espanha) e da América Latina.

O primeiro tem como pauta a problemática da fome e das crises climáticas, ambas em crescente proporção, sobretudo, no hemisfério sul, o que nos coloca na contramão dos Objetivos do Milênio eleitos pela ONU há mais de duas décadas.

O segundo privilegia o fenômeno da desinformação no ambiente da saúde e, a exemplo do primeiro, possui como lócus de pesquisas países de três continentes, a saber: América Latina, África e Europa. Ambos são financiados pelo CNPq, a quem agradecemos o apoio, sem o qual a sua realização não seria possível.

Tal como nos dois congressos – o I Congresso Internacional de Enfrentamento à Fome e à Desinformação e o II Encontro Internacional Mídia e Dimensões do Tempo -, os capítulos trazem para o debate as questões da fome, da crise climática e da desinformação, procurando articulá-las a partir de olhares que colocam em confluência, sobretudo, países africanos (Cabo Verde, Moçambique, África do Sul e Nigéria) e o Brasil.

O livro se inicia com a conferência de abertura de ambos os eventos, realizada pelo historiador Roger Chartier, a quem qualificamos a partir de sua própria autodefinição, quando logo na abertura do seu texto quando diz: “sou historiador da primeira modernidade ocidental, entre os séculos XV e XVIII. Tenho trabalhado particularmente sobre a história dos livros, dos textos, da cultura escrita e da leitura – ou, melhor dizendo, das leituras”. Portanto, é a partir desta abordagem que ele discute o tema da desinformação, que, segundo ele, “desafia todos os conhecimentos baseados sobre a produção, a circu-
lação e as apropriações de saberes verdadeiros”.

Para alertar logo em seguida: “São assim ameaçadas a informação médica sobre as pandemias, o conhecimento científico das crises climáticas e ambientais, a história entendida como representação verdadeira do passado, ou a política democrática fundada desde a Grécia antiga sobre o raciocínio racional e a ligação entre prova e retórica”.

Na sequência, apresentamos a fala testemunhal, sensívele profunda, de Muniz Sodré, sobre a questão da fome, discorrendo sobre o tema que define como “alguma coisa que me acompanha desde a infância no interior da Bahia” e produzindo o que poderia ser qualificado como uma espécie de mapa cartográfico sobre a fome nos territórios da seca e, sobretu do, da “rota dos flagelados” no Brasil.

No texto, mesmo que não contenha as ênfases, os hiatos, os silêncios do locutor e a reação emocional da plateia, Muniz se permite contar muitas histórias, numa narrativa produzida a partir das profundezas da sua própria memória. Afinal, como ele mesmo reconhece (“eu sei que conto história”), “contar história é coisa de negro nagô”. Na curta e essencial autodefinição deste que é, sem dúvida, um dos mais importantes intelectuais brasileiros dos séculos XX/XXI.

A partir daí, o livro é dividido em duas partes, procurando dar organicidade sobre as questões que constroem as múltiplas reflexões produzidas de maneira intercambiável por palestrantes no evento tanto do Rio de Janeiro e quanto no do Piauí: Fome, Desinformação e Crise Climática e Histórias da Comunicação: entre a pobreza humana e informacional.

O gesto de reunir os dois congressos numa única obra mostra, ainda, a confluência e a igualdade reflexiva entre duas regiões que foram (e ainda são) marcadas pela diferença: uma historicamente colocada à margem, ignorada pelo Estado durante décadas; e a outra, por ter sido cidade-capital desde a Colônia, foi elevada à condição de lugar da produção de um saber destinado a se espalhar pelo vasto território brasileiro.

Diferenças, que como fica evidenciado também no livro, são estratégias políticas de dominação, construídas sempre a partir da presunção de uma superioridade inexistente.

A primeira parte é composta por doze capítulos, que colocam em relação Fome, Desinformação e Crise Climática, o cerne reflexivo dos dois eventos. Já a segunda, em mais sete capítulos, privilegia a dimensão histórica dessas questões, produzindo, de certa forma, um arco reflexivo que remete às reflexões que o iniciam, quando o historiador Roger Chartier coloca em relação “história e o presente da desinformação”.

O Relatório de Riscos Globais, divulgado no início de 2024 pelo Fórum Econômico Mundial, traz uma relação das grandes preocupações de mais de mil especialistas em diversas áreas e que foram entrevistados pela pesquisa do WEF. Os experts consultados apontaram como os maiores riscos para os próximos 10 anos: eventos climáticos extremos, em primeiro lugar, seguidos, na ordem, pelas alterações nos sistemas da Terra; perda da biodiversidade e o colapso dos ecossistemas; escassez de recursos naturais; desinformação e informação falsa; resultados adversos das tecnologias de Inteligência Artificial; migração involuntária; cibersegurança; polarização social; e poluição (GRR, WEF, 2024, 2025)1.

Todos esses riscos, em maior ou em menor grau, têm relação direta com a fome no mundo, podendo potencializar o problema. Vale lembrar que em 2023, 733 milhões de pessoas passaram fome em todo o mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas. E embora o Brasil tenha saído do Mapa da Fome, em julho de 2025, poucos meses antes da realização dos eventos, é preciso considerar que isso se deu graças à retomada de políticas públicas (como o Bolsa Família, o Plano Brasil Sem Fome e o aumento do emprego). E há sempre a ameaça pairando no ar, quando por idiossincrasias políticas – como ocorreu no nefasto período governamental anterior -, de que essas mesmas políticas públicas sejam excluídas das prioridades governamentais.

Vale pontuar que a problemática milenar da fome, os riscos de agravamento das crises climáticas estão, na atual ordem do tempo, relacionados entre si e com o fenômeno social e coletivo da desinformação que envolve sociedades plataformizadas, mas também sociedades não incluídas digitalmente, por onde a desinformação chega por outros canais e em possibilidades de transmissão de co-presença, como em momentos religiosos e pelos programas de rádio e TV.

Nesse sentido, reunimos pesquisadores nacionais e internacionais de dois projetos que têm como foco os problemas e riscos da humanidade elencados acima, considerando que a compreensão do mundo contemporâneo diz respeito aos problemas estudados nos dois projetos: Comunicação: Fome, uma ponte para a África, coordenado por Marialva Barbosa da Escola de Comunicação da UFRJ, e Negacionismo e desinformação: saúde e doença em tempos de pós-verdade, coordenado por Igor Pinto Sacramento, da Fiocruz-RJ, e Ana Regina Rêgo, da UFPI.

A morte prematura do coordenador do projeto Negacionismo e desinformação, ao lado de um sentimento de profunda saudade e pesar, impossível de ser dimensionado em simples palavras, deu aos que ficaram ainda mais força para avançarem nas reflexões críticas e na produção de troca de conhecimentos, que efetivamente se concretizou nos dois encontros.

O congresso realizado no Rio de Janeiro reuniu 322 inscritos, que apresentaram 55 trabalhos nos três GTs organizados: Fome, crise climática e comunicação; Desinformação, Plataformas Digitais e Saúde Coletiva; e Comunicação, História e saberes de resistência. E ainda que a supremacia numérica tenha sido de pesquisadores do Rio de Janeiro, também apresentaram trabalhos participantes da UFES (Vitória, ES); da UFJF (Juiz de Fora, MG); UFOP (Mariana, MG); UFU (Uberlândia, MG); USP (São Paulo, SP); PUC-SP; ESPM-SP (SP); UnB (Brasília, DF); ISEB (Brasília, DF); UFG (Goiás); e da University of Munster (Alemanha).

Já o II Encontro Internacional Mídia e Dimensões do Tempo, realizado na UFPI, contou com um total de 530 participantes nas Conferências, Mesas Redondas, Oficinas e nos 7 grupos de trabalho, a saber: 1. Mídia e dimensões do tempo e as relações com a desinformação e o negacionismo científico; 2. Mídia e dimensões do tempo e as relações com o racismo e a misoginia; 3. Mídia e dimensões do tempo e a história contemporânea; 4. Mídia e dimensões do tempo na vida plataformizada; 5. Mídia e dimensões do tempo: subjetividades e identidades; 6. História e cultura, diálogos com diferentes mídias e 7. História, imprensa e sociedade, em que foram apresentados 98 trabalhos de pesquisas, totalizando 194 autores. Vale destacar que nas programações remota e presencial, além de pesquisadores da UFPI e da UESPI, o evento contou com pesquisadoresda UFPE, UFC, UFMA, UNESP, UFC, UFJF, UNB, UFRGS, dentre outros.

Ainda que os dados numéricos expressem o interesse e a importância dos temas instigados pelos congressos, as muitas imagens que os eventos produziram sintetizam a importância de se criar oportunidades para que pesquisadores de ponta possam participar de eventos em Universidades fora dos grandes centros de pesquisa no Brasil. Mostra também que mesmo nos maiores centros de pesquisa, do eixo Rio-São Paulo, é sempre necessário produzir diálogos inovadores sobre temas que afetam o cotidiano e as práticas comunicacionais, impactando o mundo que está à nossa volta e diante de nossos olhos.

As imagens do auditório do Cine Teatro – UFPI, completamente ocupado, durante a conferência de Roger Chartier na abertura do evento; as longas filas que se formaram durante muitos dias do congresso de Teresina, com professores e alunos sobraçando, muitas vezes, pilhas de livro para fixar neles o autógrafo do historiador francês, são imagens que eternizam um momento que produziu também emoções e sentimentos.

Livros que, certamente, foram cuidadosamente retirados das estantes das casas para que fossem completados pelo gesto autoral do professor que, pacientemente, escreveu muitas dedicatórias, estendendo todos os dias do congresso seu tempo na Universidade, porque durante todo o evento, lá estava ele,
sempre na primeira fila, assistindo as muitas palestras e escrevendo à mão anotações num pequeno caderno.

Da mesma forma, o diálogo entre Muniz Sodré e Roger Chartier, após a conferência de encerramento do congresso do Rio, realizada na Casa da Ciência da UFRJ, é outra imagem síntese que materializa as possibilidades dos diálogos sobre temas que atravessam lugares de saber (que afinal nunca são encarcerados) e de vivências.

As perguntas de Chartier e as respostas de Sodré (diálogo este que transcrevemos no final do texto da conferência de Muniz Sodré), naquela manhã de encerramento do evento, num auditório igualmente lotado, ficarão na lembrança de quem lá esteve, como síntese das muitas pontes construídas entre territórios que são, antes de tudo, reflexivos, lugares de saberes.

E a partir da fixação da transcrição do diálogo entre esses dois teóricos importantes na produção de reflexões das trilhas humanas na História e na Comunicação, quem sabe, esse breve texto pode um dia vir a ser, na confluência temporal da história, documento para um futuro possível e desejado.

Outro ponto a ser destacado é a reflexividade concernente à importância dos projetos internacionais no contexto de produção de uma ciência compartilhada, o que nos proporcionou reunir em dois grandes eventos pesquisadores consagrados de Brasil, França, Espanha, Cabo Verde, Moçambique, Nigéria e África do Sul.

Ana Regina Rêgo
Marialva Barbosa