Autor: Daniela Araujo

  • Ritos de iniciação e passagem em Moçambique | Solange Sitoe

    Ritos de iniciação e passagem em Moçambique | Solange Sitoe

    Enriquecendo nossas Textuações, o testemunho de Solange Sitoe, uma moçambicana residente no bairro Sommerschield, na capital Maputo, oferece um vislumbre fascinante sobre os ritos de iniciação e passagem do povo Maconde, a riqueza cultural e a força identitária de Moçambique, um país conhecido pelo seu povo acolhedor e grande potencial.

    Solage, conhecida e chamada carihosamente de “Sol”, participa em um aplicativo de mensagens, de um grupo de pesquisadores brasileiros em Maputo. Atenciosa e extremamente solidária, Sol divulga programações culturais e acompanhou um grupo de estudantes em diferentes locais onde acontecem os ritos de passagem.

    A sua narrativa tece relatos afetivos de tradições, línguas e a importância inegável da sabedoria ancestral, destacando, em particular, a etnia Maconde.

    A Identidade Cultural e a Sabedoria Ancestral em Moçambique

    Solange descreve a nação como um país “vivo”, acolhedor, e com um imenso potencial, sendo essa visão fundamentada na riqueza da identidade cultural e na coesão social, elementos que ela se empenha em preservar e compreender.

    Embora o Português seja a língua oficial, a identidade de Moçambique é forjada em um mosaico de etnias e línguas distribuídas pelas zonas Sul, Centro e Norte. Solange, além de falar Português, domina parcialmente a sua língua materna, o Xichangana (falado pela etnia Tsonga na Zona Sul), e demonstra familiaridade com outras línguas importantes, como o Emakhua (dos Macuas, uma das maiores etnias do Norte) e o Gitonga.

    A manutenção dessa diversidade linguística é considerada uma “bênção” por Solange. Ela vê nos seus avós, muitos dos quais não falam Português, verdadeiras “bibliotecas vivas”, guardiões do vasto conhecimento e dos costumes. Este respeito pela sabedoria ancestral é um pilar cultural, que opera como contraponto essencial à pressão da globalização pela adoção de línguas estrangeiras.

    Os Maconde: Resistência e Ritos de iniciação e Passagem

    Nesse vasto panorama cultural, a etnia Maconde (ou Makonde) ocupa um espaço especial. Os Macondes são um povo Bantu que habita o planalto que se estende do norte de Moçambique, principalmente em Cabo Delgado, até o sudeste da Tanzânia. São historicamente reconhecidos pela sua forte identidade cultural e resistência, tendo desempenhado um papel crucial na Guerra Colonial, onde a venda da sua arte financiou a luta pela independência (FRELIMO).

    A imersão de Solange na cultura Maconde começou em 2007*, após conviver com meninas que tinham passado pelo rito de iniciação. Os ritos de iniciação e passagem anuais são centrais para a comunidade, atuando como uma instrução de passagem da vida de criança para a vida adulta.

    Durante este período, meninos e meninas para por uma imersão de preparação nos costumes e valores da comunidade:

    • Transição: Instrução da vida de criança para a adulta.
    • Ensinamentos: Respeito aos mais velhos e preparação para o casamento.
    • Socialização: Orientações sobre como interagir e contribuir com a sociedade.

    Arte e Espiritualidade: O Legado Maconde

    A identidade Maconde é expressa através de uma arte de reconhecimento mundial. A dança Mapico, um património mundial, é um dos símbolos mais fortes da etnia, notável pelo uso de máscaras em rituais de iniciação masculina.

    Além da dança e da música, os Macondes são célebres pelas suas esculturas em pau-preto, que os tornaram mundialmente famosos e que abordam temas profundos da sua filosofia de vida, como:

    • o Ujamaa, que simboliza a vida em comunidade e a coesão de grupo, e
    • o Shetani, que representa os espíritos e o reino invisível.

    Outros traços distintivos incluem as tradicionais tatuagens faciais das mulheres e a sua língua própria, o Shimakonde completam este rico patrimônio que Solange busca preservar.

    Preservando as Raízes para o Futuro

    O que move Solange é a cultura e o esforço para entender em suas próprias palavras: “quem eu sou, de onde eu venho, quem foram os meus”. Uma jovem moçambicana dedicada a garantir que as gerações vindouras sigam essa linhagem, respeitando as passagens, a história e o orgulho moçambicano.

    A história de Solange é um convite irresistível a explorarmos a profunda identidade cultural de Moçambique, onde a força da tradição não é um obstáculo ao futuro, mas sim o seu alicerce. 

    Assista a entrevista realizada no território da antiga igreja militar, onde ocorrem os rituais de iniciação dos Malonde.


    * No vídeo Solange menciona 2019 como data de início do acompanhamento dos ritos de passagem, após assistir o vídeo editado notou o equívoco e pediu a correção da informação que segue atualizada neste texto.

    REFERÊNCIA

    ASSUNÇÃO, Helena Santos; SILVA, Aline Beatriz Miranda da. Reflexões sobre o lobolo e os ritos de iniciação femininos em Moçambique a partir de uma perspectiva da interseccionalidade. In: MUNDOS DE MULHERES & FAZENDO GÊNERO 11, 2017. Disponível em: https://www.dicio.com.br/os-erros-mais-comuns-no-mundo-do-trabalho/. Acesso em: 20/11/2025.

  • Os ritos macondes em Boane | Ernesto Aleixo

    Os ritos macondes em Boane | Ernesto Aleixo

    No dia 30 de novembro de 2025, o distrito de Boane, na província de Maputo, acolheu um evento de profunda relevância cultural: uma cerimônia de rito de passagem da comunidade Maconde. Ali estava o bailarino e percussionista Ernesto Aleixo , um membro da etnia, para acompanhar e testemunhar os ritos de iniciação que haviam se iniciado dias antes. O seu relato oferece uma janela para compreendermos um pouco da tradição Maconde, um povo Bantu mundialmente famoso pela sua arte e forte identidade.

    Os Macondes são tradicionalmente originários do Planalto de Mueda, na província de Cabo Delgado, estendendo-se até a Tanzânia, sendo reconhecidos pela sua histórica resistência e pelas suas expressões artísticas, como as famosas esculturas em pau-preto (estilos Ujamaa e Shetani). Contudo, a cerimônia em Boane demonstra a resiliência dessa cultura ancestral mesmo fora da sua região de origem. Ernesto Aleixo esclarece a distinção fundamental para a perpetuação da tradição: o povo é o Maconde, e o idioma local é o Ximakonde.

    O rito de iniciação é definido por Aleixo como “ensinamento da vida, passagem, transformação”, uma verdadeira “escola da vida”. Ele representa um legado deixado pelos antepassados, que os Macondes têm orgulho em dar continuidade. O propósito essencial do rito é uma instrução que marca a “passagem da vida de criança para a vida adulta” , ensinando os jovens a lidar com os desafios da vida, a respeitar os mais velhos, e a serem seres prontos para contribuir para a sociedade.

    A língua é o veículo primordial desta instrução. O ensinamento dentro do rito é ministrado por meio da língua Maconde (Ximakonde) para incentivar as crianças a não perderem a sua identidade e essência, garantindo-lhes “a base, sustento para o dia a dia”. Embora a língua portuguesa seja usada apenas para “reforçar” a comunicação, devido à modernidade, o ensinamento geral é sempre dado e feito através da língua Maconde.

    Ernesto nos conta que o processo, no entanto, sofreu mutações temporais ao longo das gerações. Anteriormente, podia durar um ano, depois se reduziu para quatro ou cinco meses. Atualmente, o ritual pode ser condensado em um intervalo de apenas um mês ou até uma semana. Essa compreensão exige que o processo de ensinamento seja concentrado para que o tempo seja compensado. Após o período de isolamento e instrução (entradas), o rito culmina com as saídas, onde aqueles que entram como crianças, agora já consagradas como adultas, saem para serem apresentadas à comunidade.

    É nestas cerimónias que se manifesta a rica arte Maconde, incluindo a dança e as máscaras Mapico, um património mundial.

    A continuidade do ritual é uma certeza inabalável para Ernesto Aleixo. Ele acredita que o rito “não deveria e nem deve” acabar, sendo um legado que ele, se compromete pessoalmente, dem deixar para a próxima geração. Embora reconheça que o ritual sofre mutações com o tempo, ele afirma que a identidade Maconde será sempre motivo de orgulho para o seu povo. Assim, ao ritualizar a passagem para a vida adulta no distrito de Boane, os Macondes demonstram que, mesmo com a mudança de contexto, a força da tradição é o alicerce para a construção da identidade em Moçambique.

    REFERÊNCIA

    ASSUNÇÃO, Helena Santos; SILVA, Aline Beatriz Miranda da. Reflexões sobre o lobolo e os ritos de iniciação femininos em Moçambique a partir de uma perspectiva da interseccionalidade. In: MUNDOS DE MULHERES & FAZENDO GÊNERO 11, 2017. Disponível em: https://www.dicio.com.br/os-erros-mais-comuns-no-mundo-do-trabalho/. Acesso em: 20/11/2025.

  • Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025), de autoria de Alexandre Dinis Savale e Daniela Nunes Araujo. Neste artigo buscamos investigar a complexa interseção entre o extrativismo predatório, os desastres ambientais e a mediação comunicacional no Sul Global.

    O estudo debruça-se sobre a crise ambiental na província de Manica, Moçambique, onde a mineração descontrolada de ouro resultou na contaminação crítica de rios vitais por mercúrio e cianeto, comprometendo o acesso à água potável e a segurança alimentar das populações locais. Através de uma análise de conteúdo sinóptica de 21 matérias jornalísticas publicadas em veículos como a Agência de Informação de Moçambique (AIM) e a Deutsche Welle (DW), os autores demonstram como o enquadramento midiático hegemônico priorizou uma perspectiva institucional e securitária. Esta abordagem, focada na resposta estatal e na suspensão de licenças mineiras, tendeu a invisibilizar o drama humano e as vulnerabilidades socioeconômicas daqueles que vivem às margens da exploração.

    A reflexão proposta no artigo corrobora a tese de que a comunicação deve ser entendida como uma “Ciência do Comum”, conforme proposto por Muniz Sodré, atuando como um vetor de resistência e visibilidade para o “outro”. Ao evidenciar o silenciamento de vozes comunitárias e de trabalhadores artesanais (garimpeiros) na grande imprensa, o trabalho reforça a centralidade das ações de comunicação comunitária e alternativa na construção de novos modos de existência e na denúncia da precariedade estrutural que assola territórios africanos e brasileiros.


    O trabalho “Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025)” foi apresentado na III Conferência Internacional das Ciências da Comunicação e da Informação , sob a égide da Escola Superior de Jornalismo em Moçambique. A pesquisa foi submetida e discutida no âmbito do GT (Grupo de Trabalho): Comunicação, informação e mudanças climáticas , contribuindo para o debate internacional sobre a responsabilidade social da mídia frente às emergências ambientais contemporâneas no continente africano.

O Museu de História Natural de Maputo, com sua fachada Neo-Manuelina erguida em 1933, transcende a função de um mero depósito de espécimes. Ele se estabelece como um dos mais importantes portais de Moçambique para o debate sobre identidade, história e o legado colonial. Ao caminhar por suas alas, fica evidente a sua relevância intrínseca, mas também o dilema estrutural que precisa ser endereçado.

A importância dos museus para o desenvolvimento pleno de uma sociedade é inquestionável. Eles são catalisadores da educação cívica, centros de pesquisa e, cruciais, guardiões da memória coletiva. No entanto, é imperativo reconhecer que a arquitetura do acesso, muitas vezes, confina estas instituições a uma percepção de espaço elitista tornado-o um privilégio de turistas e das classes mais abastadas.

Esta crítica não diminui o valor do acervo, mas questiona o seu alcance. O Museu, para cumprir plenamente o seu papel na nação pós-independência, deve continuar a sua jornada de abertura e popularização. Descolonizar o espaço museológico implica derrubar as barreiras sociais e geográficas que o separam do cidadão comum, integrando-o ativamente na vida das comunidades que ele procura representar.

O ponto de maior impacto emocional e intelectual da visita reside na raríssima exposição dos fetos de elefante. Esta coleção não é apenas uma curiosidade biológica; é um monumento material à violência ecológica perpetrada durante a era colonial, particularmente associada ao período da Primeira Guerra Mundial.

A caça em massa de elefantes, da qual estes fetos são o resultado direto, foi justificada pela necessidade de “limpar” a terra – a sul do Save, em grande parte – para uma suposta e inevitável exploração produtiva agrícola e de infraestruturas. Esta narrativa de “progresso” colonial revelou-se uma farsa, um verniz ideológico para encobrir a pilhagem de recursos naturais e o extermínio desenfreado da vida selvagem. Os fetos expostos servem, portanto, como uma crítica silenciosa e pungente à lógica extrativista e destrutiva do domínio estrangeiro.

Visitar o Museu de História Natural é um ato cívico necessário.Conhecer sua história, desde os artefatos etnográficos até aos espécimes zoológicos é o primeiro passo para desbravar um pouco mais da história de Moçambique e o processo de colonização ao qual grande parte da África foi submetida. O Museu oferece uma oportunidade de confrontar o passado colonial e a consequente aculturação, permitindo-nos ir além da admiração superficial.

Descolonizar a história não significa apagá-la. Pelo contrário, exige-se uma narrativa crítica que exponha as estruturas de poder, a pilhagem e a violência que moldaram a cidade de Maputo (e Moçambique) até aos dias de hoje. É através desta leitura crítica que o Museu se torna uma ferramenta essencial na construção de um futuro moçambicano mais justo, consciente e plenamente soberano.

  • Segurança alimentar em Moçambique, uma análise com Tomas Jane

    Segurança alimentar em Moçambique, uma análise com Tomas Jane

    A segurança alimentar em Moçambique constitui-se, contemporaneamente, como um dos desafios mais complexos no âmbito do desenvolvimento humano e da estabilidade socioeconômica da África Austral. No entanto, para além das métricas estatísticas de escassez, a fome demanda uma análise sob a ótica da Comunicação para o Desenvolvimento.

    Este campo investiga as dinâmicas de mobilização, os fluxos informacionais e as narrativas que sustentam a resiliência das comunidades. A partir da história pessoal e das percepções do Professor Doutor Tomas Jane, coletadas em entrevista realizada me outubro de 2025 em Maputo, propomos uma reflexão sobre como transformar o potencial agrícola em realidade na mesa dos moçambicanos.

    Quem é o Professor Doutor Tomas Jane?

    Tomas José Jane é uma figura central na produção intelectual de Moçambique. Doutor e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), Jane consolidou sua carreira na interseção entre a academia e o compromisso social.

    Como professor associado da Escola Superior de Jornalismo e da Universidade Joaquim Chissano, sua atuação destaca-se em áreas fundamentais:

    • Folk-comunicação: O saber popular como ferramenta de mudança.
    • Marketing Social: Estratégias para o bem-estar coletivo.
    • Comunicação Comunitária: O empoderamento local através da informação.

    Síntese da Entrevista: Comunicação como Chave para a Segurança Alimentar

    Em sua recente abordagem, o Professor Tomas Jane sistematiza pontos cruciais que interligam a abundância de recursos naturais e a persistência da desnutrição. Abaixo, resumimos os pilares centrais da sua visão:

    1. O Paradoxo do Potencial Agrícola

    Jane enfatiza que Moçambique possui terras férteis e recursos hídricos vastos, porém, a segurança alimentar é comprometida pela falta de infraestrutura de escoamento e de tecnologias acessíveis ao pequeno produtor. A comunicação falha ao não conectar o produtor ao mercado consumidor de forma eficiente.

    2. Mudança de Comportamento e Marketing Social

    A fome não é apenas falta de alimento, mas também uma questão de hábitos nutricionais. O professor defende que a comunicação deve atuar na educação alimentar, utilizando o marketing social para desmistificar preconceitos e promover o consumo de produtos locais altamente nutritivos que são, por vezes, negligenciados.

    3. A Folk-comunicação no Meio Rural

    Para que as políticas de desenvolvimento funcionem, é necessário falar a língua do povo. Jane destaca que a comunicação comunitária (rádios e líderes locais) é o veículo mais eficaz para transmitir técnicas de cultivo e alertas de resiliência climática, respeitando a cultura e o contexto espiritual de cada região.

    4. Empoderamento e Políticas Públicas

    A segurança alimentar exige que o cidadão deixe de ser um receptor passivo de ajuda humanitária para se tornar um agente ativo. A comunicação é o instrumento que permite a participação pública e a cobrança por políticas que garantam o acesso digno ao alimento.

    Perspectivas para Romper o Ciclo da Fome

    O professor, que vivenciou as limitações da colonização e superou barreiras econômicas para construir uma trajetória acadêmica exemplar, acredita que a educação é a base da libertação.

    O problema central desta investigação reside na persistente lacuna entre o potencial agrícola moçambicano e a fome cotidiana. Para Jane, romper este ciclo exige um esforço coordenado onde a técnica e a comunicação caminhem juntas, garantindo que a informação sobre como produzir e conservar alimentos chegue às mãos de quem mais precisa.


    Assista a entrevista realizada em 21 de outubro de 2025 no escritório do prof. Dr. Tomas Jane, em Maputo, capital de Moçambique.