Autor: Marialva Carlos Barbosa

  • Cabo Verde: música, vínculos ancestrais e  temporalidade espiralada

    Cabo Verde: música, vínculos ancestrais e  temporalidade espiralada

    Marialva Barbosa (Coordenadora  Geral do Projeto – UFRJ)1

    Será a partir de atos comunicacionais dos homens desse passado – o crioulo, como matéria de expressão e de transmissão do pensamento, e a música – que podemos aceder aos restos/rastros que possibilitam o reconhecimento de elos temporais que instauram um tempo diaspórico, em essência e em ato, no próprio lugar da africanidade. Se no Brasil, há a construção do que denominamos tempo afro-diaspórico, que explicaremos mais adiante, em Cabo Verde a temporalidade que se apresenta é a da diáspora: do passado até o presente e do presente em direção ao passado2

     Do “batuku” ao funaná; da Tabanka ao Colá-Boi; dos ritmos mais contemporâneos, como a morna (mais lenta e existente em todas as ilhas, exprimindo sentimentos diversos como nostalgia, evasão, amor, mas incluindo, por vezes, críticas sutis e irônicas à sociedade cabo-verdiana) ou o Rap Kriol; será, pela música, que a resistência se manifesta na preservação de uma memória ancestral, na reinterpretação de saberes e na sua utilização como plataforma de denúncia social e afirmação identitária. 

     O que se exprime pela música é um tempo circular, governado pelo corpo que dança, reinstaurando gestos de uma temporalidade manifestada por práticas partilhadas num cotidiano multifacetado que, pelas bordas, se reconecta ao passado ancestral. São performances em que o corpo torna-se gramática de resistências que atravessam tempos se contrapondo a uma cronologia linear, dependente do tempo do capital e da ideologia do progresso nos processos de imposição de um pensamento dominante a partir de concepções construídas, instauradas cientificamente e naturalizadas como as únicas possíveis.

    Nos ritmos que permanecem durando, nessa música cujo corpo convida a estancar o tempo e fazê-lo novamente presente num círculo, a renovação se faz pela performance corporal que obedece a ritmos cadenciados nos círculos dançantes. Não à toa muitos destes ritmos produzem, com a roda e o círculo, a performance nas formas de dançar. Muitas vezes sobressaem o ritmo forte dos tambores fornecendo elos imemoriáveis com os sons que vêm do passado e atravessaram muitos territórios. Tambores fortes chamando para a dança num código de uma linguagem que, literalmente, fala pelo som. Há aqui uma referência explícita ao passado, cujos tambores na diáspora negra tinham a função de produzir comunicações que transitavam em estradas sonoras por quilômetros. Estamos nos referindo explicitamente à função de transmitir informações pelos tambores, uma prática frequente entre os escravizados brasileiros já que os sons podiam atingir uma distância de até 20 quilômetros (Barbosa, 2016).

    Atrás das práticas orais, das quais as corporeidades e as sonoridades são fundamentais, apresenta-se um tempo cíclico na música que estaca o presente e o reinventa também a partir de um passado imemorial. Num ciclo de ações e reações inscritas no corpo.

    É o mesmo tempo espiralar que existe nas práticas rituais das comunidades afrodescendentes no Brasil e que também se mantêm vivas nos cantos, danças e performances, tanto no Brasil e como em Cabo Verde, e que, assim, se transformam em expressões da resistência e de reexistência cultural.

    Como aponta Martins (2021), neste tempo cíclico dos gestos e ritmos dos corpos tornados corpo-ação pelo corpo dançante, se apresentam os entrelaçamentos, as curvas, de maneira espiralar. Para a autora, como já remarcamos, essas performances do corpo que dança são lugares de memória de saberes ancestrais em que o passado é reatualizado no presente em projeção para novamente o passado/futuro. 

    Portanto, no nosso entendimento, é este tempo espiralar que está presente nos gestos e nas corporeidades da dança e nos sons do batuku, do funaná, da tabanka, entre outros, que, assim, podem ser considerados gêneros performativos de resistência em direção aos saberes ancestrais. Na tabanka, em Cabo Verde, a inclusão de figuras como o Rei da Corte, a Rainha, o padre, os ladrões e ao soldados, numa representação paródica da sociedade, indica a compreensão das dinâmicas de poder e a forma coletiva de criticar e lidar com a opressão. O medo colonial de que a tabanka fomentasse revoltas de escravizados mostra o seu poder, transformando a sua permanência até o século XXI como testemunho da relação com um tempo ancestral trazido para a experiência do presente. A rigor, numa circularidade permanente, o passado se interpenetra com o contemporâneo, num tempo circular de engloba tempos sobrepostos por atos memoráveis, nos quais a memória ancestral tem prevalência. 

    Nesse contexto da música expressando atos comunicacionais construídos pelos corpos, pelos gestos, pelos sons, numa gramática da oralidade complexa (Barbosa, 2016), faz dessas manifestações maneiras de preservação e reatualização da memória cultural, numa escrita que se transmite pelos gestos da oralidade e se fixa pelos gestos memoráveis. 

    Tal como indica Martins (2021), a performance (em rituais, danças, cantos ou narrativas orais) torna-se veículo por excelência da temporalidade ancestral, já que pelos complexos gestos e ações, as comunidades (re) inscrevem seu passado no presente e, ao mesmo tempo, projetam-no no futuro, numa contínua atualização de saberes.


    1. Trecho do livro Dimensões do Tempo: Diásporas Africanas e Tessituras Históricas, escrito em coautoria com Ana Regina Rego, em fase de publicação pela MAUADX, com previsão de lançamento para o início de 2026.

    2. Não é nossa intenção aprofundar as reflexões em torno da música cabo-verdiana como construção de elos entre resistência e africanidade, até porque como este não é o tema das nossas pesquisas e não teríamos competência teórica para desenvolver tal análise. Usamos aqui a música mais como exemplo de expressão de uma gramática da oralidade produzida pelo corpo em situação de performance para identificar permanências com a ancestralidade, na dimensão de uma temporalidade aqui considerada como representada pela figura geométrica da espiral. Sobre a reflexão da importância estratégica da música em Cabo Verde como resistência ao legado da africanidade há vários estudos que abordam a questão. Cf. entre outros Nogueira, 2011 e 2020; Tavares, 2019. Para um inventário mais completo sobre o tema cf. https://www.caboverdeamusica.online/bibliografia/

    Leia também o artigo Textuações da Coordenadora  Geral do Projeto Marialva Carlos Barbosa sobre narrativas de re-existências em territórios históricos que, mesmo marcados pela diáspora e pelo silenciamento, produzem o comunicacional como o outro visível a partir de diálogos.

    Referências:

    BARBOSA, Marialva e RÊGO, Ana Regina. Dimensões do Tempo. Diásporas africanas e tessituras históricas. Rio de Janeiro: MAUADX, 2026.

    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

    NOGUEIRA, Glaucia. Batuku, património imaterial de Cabo Verde. Percurso histórico-musical. Dissertação de Mestrado, Universidade de Cabo Verde, 2011.TAVARES, Elisa. Autenticidade e identidade. Tradição e inovação no batuku crioulo de Cabo Verde. Basilea, Freiburg: Universidade de Basel, 2019; https://freidok.uni-freiburg.de/data/151638.

  • Textuações

    Textuações

    São narrativas das experiências e existências que se manifestam em gestos múltiplos que revelam, assim, possibilidades de re-existências.

    O corpo (individual/comunitário) torna-se âncora da visibilidade das textuações: a fala, o gesto, a produção de um tempo de vida comum nas experiências do cotidiano. O pensamento não é produzido só pelas palavras, mas pelo corpo em sua vinculação com o entorno ético e existencial, portanto na relação concreta entre homem e natureza. O transbordamento se faz pelo corpo. As textuações não se limitam aos discursos entre locutor e ouvinte, revelando-se também pela memória, pela construção imaginativa, pela relação do homem com a natureza (profundamente inóspita muitas vezes). Desta cosmografia nasce um pensamento que produz e revela textuações sobre mundos possíveis.

    Do desconhecimento sobre os mundos e os fins na era do Antropoceno, onde Gaia passa a ser pensada como corpo pluridimensional, coloca-se, então, reflexões oriundas da África (sempre envolta em muitos silêncios), já que uma das faces mais perversas das consequências das transformações climáticas é a fome real que se abate sobre os povos desassistidos historicamente e deliberadamente esquecidos. A fome desaba sobre o corpo, que perde forças, impede a ação, produz a paralisação, ou seja, introduz uma fissura irreparável no modo de ser/sentir ancestral desses povos. Assim, diante da fome que se abate sobre seu território, como se colocam frente ao fim, aos fins, aos mundos?

    A ideia central é a partir de mitologias duradouras existentes nos lugares de vivência mostrar mitologias do presente como possibilidade de re-existências. Delas talvez possam surgir outras formas de pensar a existência, a partir de outros sonhos possíveis. Contar histórias e mais histórias que falem desses seres humanos/míticos/presentes/passados/ancestrais/permanentes/imanentes é, podemos afirmar inspirados por Kernak (2020, p. 27), “adiar o fim do mundo”. Contar uma história, por outro lado, coloca em destaque o múltiplo significado do verbo: contar é falar, produzir uma verborragia que religa mundos e tempos, mas também é estar juntos, “contar com o outro”. Contar, por fim, é somar, multiplicar, realizar operações que podem ser mais ou menos, mas para as quais podemos produzir a multiplicação. Se pudermos fazer isso, estaremos igualmente “adiando o fim”.

    A partir das textualizações recolhidas e produzidas, constrói-se textuações, ou seja, modos de percepção de vidas conectadas em outras bases, do qual o princípio de “poder contar uns com os outros” pode ser a liga entre existências passadas e futuras. É pela criatividade, pela poesia, dos que não são iguais. Somos diferentes, mas podemos nos direcionar para pontos de contato, para diálogos presentes-passados, para a denúncia das condições de existência, para a comunicação das possibilidades das diferenças para construções de ações e imaginações suplantando um presente, por vezes, por demais cruel.

    O resultado está no ato escutar/registrar histórias atemporais, filosofias imemoriais, memórias da re-existência, nas quais a transcendência sobre determina a imanência, falando das dores e das esperanças, das tragédias e da alegria, de um mundo possível como ação/textuações. Estas não podem ser visualizadas como uma outra mitologia adequada a um presente de medos e incertezas?

    Textuações que emergem da falta, da dor e, tantas vezes, da fome. Sonhar, por vezes, é mais eficiente do que achar que só se pode transformar por ações concretas. Os sonhos nos conectam a outros mundos, outras possibilidades, outros territórios. Que renovam existências.

    Leia também o artigo Cabo Verde: música, vínculos ancestrais e  temporalidade espiralada da Coordenadora  Geral do Projeto Marialva Carlos Barbosa.

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    Catarina

    “Pra frente vai sempre ser melhor” Declara Catarina Lopes de Barros, trabalhadora do Mercado São Lourenço do Jorge em Cabo Verde. Em conversa com o projeto África ela nos conta um pouco da sua rotina, família, trabalho e sonhos.

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    Conheça Augusto, vendedor de legumes e verduras no Mercado de Cabo verde. Há dois anos trabalhando no local ele partilha um pouco do dia-a-dia nos apresentando uma visão única das alegrias e riquezas da vida cotidiana.

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