Categoria: Artigos

  • Os ritos macondes em Boane | Ernesto Aleixo

    Os ritos macondes em Boane | Ernesto Aleixo

    No dia 30 de novembro de 2025, o distrito de Boane, na província de Maputo, acolheu um evento de profunda relevância cultural: uma cerimônia de rito de passagem da comunidade Maconde. Ali estava o bailarino e percussionista Ernesto Aleixo , um membro da etnia, para acompanhar e testemunhar os ritos de iniciação que haviam se iniciado dias antes. O seu relato oferece uma janela para compreendermos um pouco da tradição Maconde, um povo Bantu mundialmente famoso pela sua arte e forte identidade.

    Os Macondes são tradicionalmente originários do Planalto de Mueda, na província de Cabo Delgado, estendendo-se até a Tanzânia, sendo reconhecidos pela sua histórica resistência e pelas suas expressões artísticas, como as famosas esculturas em pau-preto (estilos Ujamaa e Shetani). Contudo, a cerimônia em Boane demonstra a resiliência dessa cultura ancestral mesmo fora da sua região de origem. Ernesto Aleixo esclarece a distinção fundamental para a perpetuação da tradição: o povo é o Maconde, e o idioma local é o Ximakonde.

    O rito de iniciação é definido por Aleixo como “ensinamento da vida, passagem, transformação”, uma verdadeira “escola da vida”. Ele representa um legado deixado pelos antepassados, que os Macondes têm orgulho em dar continuidade. O propósito essencial do rito é uma instrução que marca a “passagem da vida de criança para a vida adulta” , ensinando os jovens a lidar com os desafios da vida, a respeitar os mais velhos, e a serem seres prontos para contribuir para a sociedade.

    A língua é o veículo primordial desta instrução. O ensinamento dentro do rito é ministrado por meio da língua Maconde (Ximakonde) para incentivar as crianças a não perderem a sua identidade e essência, garantindo-lhes “a base, sustento para o dia a dia”. Embora a língua portuguesa seja usada apenas para “reforçar” a comunicação, devido à modernidade, o ensinamento geral é sempre dado e feito através da língua Maconde.

    Ernesto nos conta que o processo, no entanto, sofreu mutações temporais ao longo das gerações. Anteriormente, podia durar um ano, depois se reduziu para quatro ou cinco meses. Atualmente, o ritual pode ser condensado em um intervalo de apenas um mês ou até uma semana. Essa compreensão exige que o processo de ensinamento seja concentrado para que o tempo seja compensado. Após o período de isolamento e instrução (entradas), o rito culmina com as saídas, onde aqueles que entram como crianças, agora já consagradas como adultas, saem para serem apresentadas à comunidade.

    É nestas cerimónias que se manifesta a rica arte Maconde, incluindo a dança e as máscaras Mapico, um património mundial.

    A continuidade do ritual é uma certeza inabalável para Ernesto Aleixo. Ele acredita que o rito “não deveria e nem deve” acabar, sendo um legado que ele, se compromete pessoalmente, dem deixar para a próxima geração. Embora reconheça que o ritual sofre mutações com o tempo, ele afirma que a identidade Maconde será sempre motivo de orgulho para o seu povo. Assim, ao ritualizar a passagem para a vida adulta no distrito de Boane, os Macondes demonstram que, mesmo com a mudança de contexto, a força da tradição é o alicerce para a construção da identidade em Moçambique.

    REFERÊNCIA

    ASSUNÇÃO, Helena Santos; SILVA, Aline Beatriz Miranda da. Reflexões sobre o lobolo e os ritos de iniciação femininos em Moçambique a partir de uma perspectiva da interseccionalidade. In: MUNDOS DE MULHERES & FAZENDO GÊNERO 11, 2017. Disponível em: https://www.dicio.com.br/os-erros-mais-comuns-no-mundo-do-trabalho/. Acesso em: 20/11/2025.

  • Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025), de autoria de Alexandre Dinis Savale e Daniela Nunes Araujo. Neste artigo buscamos investigar a complexa interseção entre o extrativismo predatório, os desastres ambientais e a mediação comunicacional no Sul Global.

    O estudo debruça-se sobre a crise ambiental na província de Manica, Moçambique, onde a mineração descontrolada de ouro resultou na contaminação crítica de rios vitais por mercúrio e cianeto, comprometendo o acesso à água potável e a segurança alimentar das populações locais. Através de uma análise de conteúdo sinóptica de 21 matérias jornalísticas publicadas em veículos como a Agência de Informação de Moçambique (AIM) e a Deutsche Welle (DW), os autores demonstram como o enquadramento midiático hegemônico priorizou uma perspectiva institucional e securitária. Esta abordagem, focada na resposta estatal e na suspensão de licenças mineiras, tendeu a invisibilizar o drama humano e as vulnerabilidades socioeconômicas daqueles que vivem às margens da exploração.

    A reflexão proposta no artigo corrobora a tese de que a comunicação deve ser entendida como uma “Ciência do Comum”, conforme proposto por Muniz Sodré, atuando como um vetor de resistência e visibilidade para o “outro”. Ao evidenciar o silenciamento de vozes comunitárias e de trabalhadores artesanais (garimpeiros) na grande imprensa, o trabalho reforça a centralidade das ações de comunicação comunitária e alternativa na construção de novos modos de existência e na denúncia da precariedade estrutural que assola territórios africanos e brasileiros.


    O trabalho “Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025)” foi apresentado na III Conferência Internacional das Ciências da Comunicação e da Informação , sob a égide da Escola Superior de Jornalismo em Moçambique. A pesquisa foi submetida e discutida no âmbito do GT (Grupo de Trabalho): Comunicação, informação e mudanças climáticas , contribuindo para o debate internacional sobre a responsabilidade social da mídia frente às emergências ambientais contemporâneas no continente africano.

  • Textuações

    Textuações

    São narrativas das experiências e existências que se manifestam em gestos múltiplos que revelam, assim, possibilidades de re-existências.

    O corpo (individual/comunitário) torna-se âncora da visibilidade das textuações: a fala, o gesto, a produção de um tempo de vida comum nas experiências do cotidiano. O pensamento não é produzido só pelas palavras, mas pelo corpo em sua vinculação com o entorno ético e existencial, portanto na relação concreta entre homem e natureza. O transbordamento se faz pelo corpo. As textuações não se limitam aos discursos entre locutor e ouvinte, revelando-se também pela memória, pela construção imaginativa, pela relação do homem com a natureza (profundamente inóspita muitas vezes). Desta cosmografia nasce um pensamento que produz e revela textuações sobre mundos possíveis.

    Do desconhecimento sobre os mundos e os fins na era do Antropoceno, onde Gaia passa a ser pensada como corpo pluridimensional, coloca-se, então, reflexões oriundas da África (sempre envolta em muitos silêncios), já que uma das faces mais perversas das consequências das transformações climáticas é a fome real que se abate sobre os povos desassistidos historicamente e deliberadamente esquecidos. A fome desaba sobre o corpo, que perde forças, impede a ação, produz a paralisação, ou seja, introduz uma fissura irreparável no modo de ser/sentir ancestral desses povos. Assim, diante da fome que se abate sobre seu território, como se colocam frente ao fim, aos fins, aos mundos?

    A ideia central é a partir de mitologias duradouras existentes nos lugares de vivência mostrar mitologias do presente como possibilidade de re-existências. Delas talvez possam surgir outras formas de pensar a existência, a partir de outros sonhos possíveis. Contar histórias e mais histórias que falem desses seres humanos/míticos/presentes/passados/ancestrais/permanentes/imanentes é, podemos afirmar inspirados por Kernak (2020, p. 27), “adiar o fim do mundo”. Contar uma história, por outro lado, coloca em destaque o múltiplo significado do verbo: contar é falar, produzir uma verborragia que religa mundos e tempos, mas também é estar juntos, “contar com o outro”. Contar, por fim, é somar, multiplicar, realizar operações que podem ser mais ou menos, mas para as quais podemos produzir a multiplicação. Se pudermos fazer isso, estaremos igualmente “adiando o fim”.

    A partir das textualizações recolhidas e produzidas, constrói-se textuações, ou seja, modos de percepção de vidas conectadas em outras bases, do qual o princípio de “poder contar uns com os outros” pode ser a liga entre existências passadas e futuras. É pela criatividade, pela poesia, dos que não são iguais. Somos diferentes, mas podemos nos direcionar para pontos de contato, para diálogos presentes-passados, para a denúncia das condições de existência, para a comunicação das possibilidades das diferenças para construções de ações e imaginações suplantando um presente, por vezes, por demais cruel.

    O resultado está no ato escutar/registrar histórias atemporais, filosofias imemoriais, memórias da re-existência, nas quais a transcendência sobre determina a imanência, falando das dores e das esperanças, das tragédias e da alegria, de um mundo possível como ação/textuações. Estas não podem ser visualizadas como uma outra mitologia adequada a um presente de medos e incertezas?

    Textuações que emergem da falta, da dor e, tantas vezes, da fome. Sonhar, por vezes, é mais eficiente do que achar que só se pode transformar por ações concretas. Os sonhos nos conectam a outros mundos, outras possibilidades, outros territórios. Que renovam existências.