A segurança alimentar em Moçambique constitui-se, contemporaneamente, como um dos desafios mais complexos no âmbito do desenvolvimento humano e da estabilidade socioeconômica da África Austral. No entanto, para além das métricas estatísticas de escassez, a fome demanda uma análise sob a ótica da Comunicação para o Desenvolvimento.

Este campo investiga as dinâmicas de mobilização, os fluxos informacionais e as narrativas que sustentam a resiliência das comunidades. A partir da história pessoal e das percepções do Professor Doutor Tomas Jane, coletadas em entrevista realizada me outubro de 2025 em Maputo, propomos uma reflexão sobre como transformar o potencial agrícola em realidade na mesa dos moçambicanos.

Quem é o Professor Doutor Tomas Jane?

Tomas José Jane é uma figura central na produção intelectual de Moçambique. Doutor e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), Jane consolidou sua carreira na interseção entre a academia e o compromisso social.

Como professor associado da Escola Superior de Jornalismo e da Universidade Joaquim Chissano, sua atuação destaca-se em áreas fundamentais:

  • Folk-comunicação: O saber popular como ferramenta de mudança.
  • Marketing Social: Estratégias para o bem-estar coletivo.
  • Comunicação Comunitária: O empoderamento local através da informação.

Síntese da Entrevista: Comunicação como Chave para a Segurança Alimentar

Em sua recente abordagem, o Professor Tomas Jane sistematiza pontos cruciais que interligam a abundância de recursos naturais e a persistência da desnutrição. Abaixo, resumimos os pilares centrais da sua visão:

1. O Paradoxo do Potencial Agrícola

Jane enfatiza que Moçambique possui terras férteis e recursos hídricos vastos, porém, a segurança alimentar é comprometida pela falta de infraestrutura de escoamento e de tecnologias acessíveis ao pequeno produtor. A comunicação falha ao não conectar o produtor ao mercado consumidor de forma eficiente.

2. Mudança de Comportamento e Marketing Social

A fome não é apenas falta de alimento, mas também uma questão de hábitos nutricionais. O professor defende que a comunicação deve atuar na educação alimentar, utilizando o marketing social para desmistificar preconceitos e promover o consumo de produtos locais altamente nutritivos que são, por vezes, negligenciados.

3. A Folk-comunicação no Meio Rural

Para que as políticas de desenvolvimento funcionem, é necessário falar a língua do povo. Jane destaca que a comunicação comunitária (rádios e líderes locais) é o veículo mais eficaz para transmitir técnicas de cultivo e alertas de resiliência climática, respeitando a cultura e o contexto espiritual de cada região.

4. Empoderamento e Políticas Públicas

A segurança alimentar exige que o cidadão deixe de ser um receptor passivo de ajuda humanitária para se tornar um agente ativo. A comunicação é o instrumento que permite a participação pública e a cobrança por políticas que garantam o acesso digno ao alimento.

Perspectivas para Romper o Ciclo da Fome

O professor, que vivenciou as limitações da colonização e superou barreiras econômicas para construir uma trajetória acadêmica exemplar, acredita que a educação é a base da libertação.

O problema central desta investigação reside na persistente lacuna entre o potencial agrícola moçambicano e a fome cotidiana. Para Jane, romper este ciclo exige um esforço coordenado onde a técnica e a comunicação caminhem juntas, garantindo que a informação sobre como produzir e conservar alimentos chegue às mãos de quem mais precisa.


Assista a entrevista realizada em 21 de outubro de 2025 no escritório do prof. Dr. Tomas Jane, em Maputo, capital de Moçambique.

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