Tomate, alface, pimenta, maçã, abacaxi, batata, cebola, peixe, camarão, grãos. Gente por todos os lados, trouxas equilibradas na cabeça, pechincha, jogos de carta. Estou no mercado grossista do Zimpeto, zona comercial em Maputo, para onde é destinada parte dos produtos produzidos nas machambas que visitei nas últimas semanas, em Moamba Chibuto, além de outras regiões do país.

O movimento é intenso e ali se percebe com mais nitidez os efeitos para a população em geral do que tenho relatado nos outros posts – a seca, as enchentes, o clima impactando a produção de alimentos no país. É outra perspectiva agora, não mais das famílias camponesas que veem os eventos extremos atravessarem seu dia a dia, mas daqueles que vivem na cidade e percebem esses eventos no preço.

“Está caro”, me diz a senhora vendedora de legumes. Ela está sentada em uma das extremidades do mercado desde as primeiras horas do dia, com sua banca de couves e alfaces, e àquela altura, por volta do horário do almoço, praticamente não tinha vendido uma folha. O alface, em especial, tem saído muito pouco nas últimas semanas, pois necessita de água em seu cultivo e estamos vivendo período de seca nas plantações.

Ela me conta tudo isso numa mistura do português com a changana. Queria ter um pouco mais de tempo para compreender essa língua local, tão falada e tão profundamente moçambicana. Quem me ajuda na “tradução” é o fotógrafo e artista Alex Nhare, mais um amigo desses tempos em Maputo. Alex trabalhou por muitos anos como vendedor no mercado e me ajuda a percorrer as ruas, becos e todos os cantos do local. Conta-me histórias, reencontra pessoas, me auxilia em algumas abordagens.

Gravei uma bela entrevista com a senhora vendedora de legumes, e depois descobri, já em casa, que o microfone havia falhado e não captou uma palavra. Coisas da tecnologia, da comunicação, da vida de um pesquisador. Com os fragmentos do que me lembrava e a boa memória do Alex, reconstituímos parte da história que ela nos contou.

Mulher vende hortaliças
Foto de Alex Nhare

Conversei também, formal e informalmente, com outras pessoas no mercado e nos arredores. A percepção do alto custo dos alimentos é bastante presente. As vendedoras também tinham uma reclamação constante sobre a escassez de clientes e a baixa nas vendas. “Obrigado por me garantirem algo pra hoje”, disse a jovem vendedora de bananas, com quem compramos um cacho.

Todo mundo com quem conversei disse que “está difícil”.

Uma trabalhadora em especial, importadora de maçã, me explicou que o tempo frio atrapalha sobremaneira as vendas – não só pela parte da produção, mas especialmente porque as pessoas dispõem de menos recursos. Aquelas que trabalham informalmente, por exemplo, ficam menos tempo na rua e a renda cai. “No tempo de calor as pessoas têm dinheiro, eles conseguem vender desde a manhã até 23h, ficam até tarde na rua, a circular, a vender. Nesse tempo de frio, às 18h as pessoas já não estão na rua”, me explica.

E como fazer? Minha pergunta de sempre. A questão que gira, gira e ajuda a justificar essa pesquisa: o que fazer para vencer essas situações muito adversas e seguir vivendo?

“É um sacrifício que fazemos. Nesse tempo de frio não há dinheiro; mas, pronto, fazer o que? Tem que sacrificar. Para pagar as contas de casa, manter a venda, conseguir um futuro”

As maçãs vêm da África do Sul, país vizinho, em outro estágio de desenvolvimento econômico, que fornece uma grande parte de insumos a Moçambique, em diversas áreas, da agricultura aos produtos industrializados, como máquinas, eletrodomésticos, veículos etc. É uma relação bastante assimétrica, com grande superávit comercial do país sulafricano, ocasionando uma forte dependência econômica.

Os comentários sobre essa dependência são recorrentes, especialmente nas conversas com os motoristas de Yango (o aplicativo de transporte individual, à semelhança do Uber). A gasolina é importada em grande volume, sem produção suficiente para abastecimento interno, então o preço é elevado. Isso impacta o custo de vida e torna Moçambique um país caro para os moçambicanos.

Vários tipos de feijão vendidos em uma feira

Curiosamente, nos dados oficiais, a inflação em junho sofreu um leve recuo, de 0,07%, queda influenciada pelo preço das… hortaliças. No acumulado de um ano, no entanto, os preços subiram 4,15%. O maior aumento foi justamente na área de alimentos e bebidas – quase 10% em doze meses.

A vida está cara sim. Como estrangeiro, percebo menos, embora minha percepção pessoal também seja de um país mais “caro” do que há sete anos, quando vim pela primeira vez. Mas claro que faz uma grande diferença estar como turista, como em 2018, num ritmo veloz para conhecer tudo quanto possível em menor espaço de tempo – e um pouco mais de disposição para gastanças; e agora, que tenho vivido a rotina e mergulhado mais profundamente na vida da cidade.

Hoje, o preço do mercado me impacta mais. Descobri no Zimpeto uma boa alternativa aos mercadinhos que tenho na minha esquina. Vou voltar – da próxima vez, com um microfone que funcione.

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