Estamos no Outono, tempo de dias quentes e noites frias – não as geladas como ouço dizer que está no Rio, agora distante cerca de 7,5 mil quilômetros.

Estamos também na estação seca, neste pêndulo que governa Moçambique, do ponto de vista climático: os meses chuvosos e aqueles em que raras são as lágrimas de Ombela caindo do céu. Assim deve permanecer até outubro.

Estamos em Maputo. Estação Maputo!

Aos que me perguntam como é, costumo responder: familiar. E quente! Mas não apenas pelo que se verifica nos termômetros da cidade ou pelo enorme sol que nos fornece um espetacular entardecer ao fim de cada dia. O calor aqui se mede especialmente no pulsar da vida na capital: agitada, complexa, caótica, energética, suada. Me sinto em casa.

Céu de cor laranja no entardecer de Maputo

Estou aqui para uma pesquisa desenvolvida em parceria pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Escola Superior de Jornalismo de Maputo – e também com outras universidades em diferentes regiões do continente africano. Ela é coordenada pela grande professora e pesquisadora Marialva Barbosa, e eu estou realmente muito honrado e grato por estar aqui, de volta à Moçambique sete anos depois, quando visitei pela primeira vez para curtir umas férias. Dessa vez, há trabalho e novas questões a descobrir.

No centro das nossas atenções está a crise climática e seus desdobramentos sociais, especialmente no que diz respeito à insegurança alimentar. Compreender de que forma comunidades locais são afetadas pelos efeitos mais cruéis das mudanças climáticas e especialmente as tecnologias sociais desenvolvidas por essas comunidades para lidar com as adversidades e construir suas vidas.

Moçambique é uma das dez nações mais vulneráveis do mundo aos eventos climáticos. Historicamente, o país tem sido o mais afetado por desastres naturais de toda a África Austral (a região mais ao sul do continente africano). Em 45 anos, foram registrados 53 desastres, que exigiram o deslocamento físico de cerca de 500 mil pessoas. Apenas nas últimas duas décadas, mais de 8 milhões de moçambicanos foram afetados de alguma forma por esses desastres. Os dados estão presentes no estudo Climate Change Adaptation in Mozambique, assinado por um conjunto de pesquisadores moçambicanos.

Nos últimos meses, o fenômeno do El Niño tem provocado ainda menos chuvas, com grave impacto para a produção agrícola, provocando efeitos devastadores: apenas como um exemplo, a província de Sofala, no centro de Moçambique, vive uma grave crise alimentar, que os jornais destacam como “sem precedentes”, com 600 mil pessoas atingidas pela escassez dos alimentos. Em outra ponta, a mineração tem elevado a poluição nos rios, obrigando também o abandono de pequenos agricultores das regiões antes férteis.

Em todo o mundo, o homem avança sobre a natureza e produz as causas da própria destruição. É esta a nossa era, dizem os cientistas, o Antropoceno.

Aqui, contudo, florescem também histórias de resiliência e de arranjos sofisticados para se lidar com a crise e tornar a vida possível mesmo em espaços em que ela se encontra sufocada. Em Manica, Boane, Chibuto, Gaza, Manhiça e nas esquinas, barracas e paragens de Maputo. Onde a vida pulsa, se refaz, transforma, ferve, queima.

São essas histórias que queremos contar. Relatos, personagens, comunidades que este blog pretende registrar nas próximas semanas. Sintam-se todos convidados a chegar e a permanecer nesta nossa viagem.

Partimos de Maputo, qual será a próxima estação?

Também estou produzindo relatos mais pessoais do cotidiano em Maputo, em especial na minha página no instagram (@jadermoraesrj). Se quiser saber um pouco mais desse dia a dia, chega lá!

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