Em Gaza, fala-se changana.
O português é a língua oficial em todo o vasto território moçambicano, com sua dezena de províncias e mais de 160 distritos, que ocupam uma área de quase 800 mil km² (mais que a soma do território de França, Inglaterra e Portugal, para citar apenas três significativos exemplos). Contudo, em que pese a oficialidade do português, outras 40 línguas são faladas no país, originárias da colcha de diversas etnias que formam essa nação.
A changana é a mais popular dessas línguas. É difícil encontrar um moçambicano que não a fale, e à medida que avançamos para o interior e nos distanciamos da agitada Maputo, mais e mais essa língua se torna a principal na comunicação entre os moradores.
Comunicação, essa é a palavra-chave do texto de hoje.

Como adiantei na última semana, partimos para um novo destino, na província de Gaza: a cidade de Chibuto, distante cerca de quatro horas de Maputo. Quando escrevo no plural, significa que partimos eu e Edgar Barroso, pesquisador moçambicano que faz seu doutorado em Goiás e também integra este projeto. Um amigo que encontrei nessa estrada.
Em Chibuto, fomos acolhidos pela diretora da rádio comunitária local, a querida Tuária. Conhecemos o estúdio e ela fez a ponte com todas as pessoas com quem conversamos, acompanhando sempre que possível e nos indicando os caminhos para obtermos êxito em nossa investigação no distrito.
A forma gentil e dedicada com que nos apoiou e sua relação próxima com diferentes atores locais nos deu a dimensão do papel e da importância da rádio para a sociedade de Chibuto. O veículo é o único radiofônico do distrito e o principal meio de comunicação para a população.
“Muitas pessoas não possuem televisão, então é aqui que elas esperam ouvir notícias, informações e entretenimento. Se a rádio para por um segundo, já começo a receber ligações”, comenta Tuária.

Nas ondas do rádio, em português e em changana, são transmitidos programas diversos sobre cultura, economia, gênero, saúde, mas também informações a respeito de meteorologia e dos efeitos do clima.
Recentemente, Chibuto sofreu com fortes chuvas que levaram à inundação de áreas agrárias e zonas residenciais. As águas do Rio Limpopo deixaram mais de 20 mil famílias sitiadas e ao menos cinco mil produtores severamente afetados. O impacto em áreas sensíveis como a insegurança alimentar foi relevante.
Situações como essa fazem do clima uma pauta constante na programação da rádio. O tema é abordado seja por meio da leitura de boletins emitidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia, seja por programas mais instrutivos, com dicas sobre formas mais seguras de construção das moradias, por exemplo. Além disso, em caso de avisos urgentes, um veículo da rádio percorre as diferentes comunidades da região.
“As mudanças climáticas são a situação mais influente dos últimos tempos, com muitos eventos extremos e alguns repentinos. Buscamos disseminar informações de modo que as pessoas saiam de suas zonas e se transfiram para lugares mais seguros, ou que colham os produtos que já puderem ser colhidos, uma vez que o temporal está se aproximando”, exemplifica.
Chibuto sofre com a dualidade climática que marca o país. Ciclones e chuvas fortes de um lado, período prolongado de seca na maior parte do ano. Um pequeno produtor de abacaxis nos contou que as famílias do campo hoje enfrentam novos desafios por conta do aprofundamento das questões climáticas. A comunicação, por meio da rádio ou das redes sociais, é considerada fundamental para a prevenção dos desastres.
As rádios comunitárias, em Moçambique, possuem um caráter público, pois estão oficialmente ligadas ao Instituto de Comunicação Social, órgão governamental. São mais de 80 estações em todo o país, inclusive naqueles distritos mais distantes. Mesmo sendo braço governamental, realizam um esforço de ouvir e trazer a voz da sociedade na programação. Para isso, as equipes costumam se deslocar, mesmo com dificuldades, buscando retratar o cotidiano de camponeses e da população em geral.
Os produtores atingidos pelas enchentes do início do ano, parte relevante da audiência da rádio, estão neste momento refazendo seus campos, buscando alternativas e investindo em outras culturas agrícolas, mais resistentes às mudanças do clima. Quando pergunto sobre as formas de sobrevivência às adversidades que por vezes parecem intransponíveis, Tuária dá uma explicação que me remete a uma velha expressão popular brasileira, imortalizada na canção de Adoniran: aquela máxima de que “Deus dá o frio conforme o cobertor”.
O moçambicano, de forma geral, é um povo crente (de grande diversidade religiosa). E, ao lado de outros instrumentos, também conta com sua fé para atravessar esses momentos.
“Deus nunca pode destruir algo e não deixar alguma coisa que possa ajudar as pessoas. Então, a destruição atinge mais as zonas baixas, mas existem as zonas altas. As pessoas ficam sem seus produtos, mas recorrem a outros produtores que não foram afetados ou ao mercado. Contam com o apoio do governo, investem em outros produtos mais resistentes, encontram soluções”, afirma Tuária, que finaliza recordando uma plantação com dezenas de trabalhadoras que avistamos mais cedo, atingida pelas cheias de meses atrás:
“Agora eles estão recomeçando a lançar as sementes. Sempre há uma saída”.

*A voz de Chibuto, em changana
