Associativismo, experiência histórica e… redes sociais. Três das chaves para sobrevivência em tempos de extremos climáticos. Vou contar um pouco do que ouvi nesta última semana em uma pequena viagem muito especial.

Estamos em Moamba para a continuidade das escutas da pesquisa que me trouxe até Moçambique. Nesta pequena vila localizada a cerca de duas horas de Maputo venta forte. Uma liderança local, que nos recebe com um café e muitas boas histórias à sombra de uma árvore no quintal de casa, explica que estes ventos são característicos em alguns meses do ano, especialmente no período de seca, mas que dessa vez haviam chegado mais cedo.

É ele quem nos diz algo forte assim que nos sentamos:

“Eu desisti da agricultura, por conta das mudanças climáticas”.

O “ex-agricultor” mostra os equipamentos que havia comprado, estocados num pequeno cômodo no quintal, e disserta sobre as alterações na paisagem nos últimos anos e a falta de uma política governamental que dê suporte a quem deseja produzir. Não descarta voltar à atividade agrária. Eu apostaria que sim.

O dirigente de uma associação de camponeses da região também nos informa da falta de apoio e, especialmente, da dificuldade de financiamento para modernização dos campos de trabalho. Mas não vê espaço para mais desistências:

“Está difícil, mas sempre permanecemos. Se saio daqui, vou para onde?”

O associativismo é uma saída prática para dividir os custos de energia e para compartilhar as soluções. São 130 membros ativos, que produzem em uma área de aproximadamente 230 hectares. Juntos, sabem que será mais fácil ser resilientes frente às intempéries climáticas e também às barreiras políticas. Numa região marcada pelo calor intenso, a modernização dos sistemas de irrigação é uma pauta crucial deste momento, capitaneada pela organização. Segundo nos conta essa liderança, no passado o governo brasileiro já se dispôs a apoiar os agricultores moçambicanos, mas a iniciativa não progrediu.

Árvore antiga

Moamba historicamente sofre com fortes chuvas, mas principalmente com períodos prolongados de seca. Este ano, a última gota d’água caiu em março, há três meses. A expectativa é que assim permaneça até dezembro, quando deve iniciar o breve período chuvoso.

O homem de sorriso largo que desistiu do campo nos explica que a região da Moamba sempre conviveu com este cenário das secas, algumas bastante severas nos últimos cinquenta anos, mas houve um agravamento da situação: enquanto na década de 70, havia um acumulado de cerca de 200 mm de água durante o período chuvoso, hoje os índices não passam de 50 mm ao longo de todo o ano.

E como lidar com isso? No caminho entre as diferentes áreas que visitamos, entre grandes plantações de repolhos, alfaces, pimentões e tomates, os dois rapazes responsáveis por nos guiar em suas motos nos contaram que suas famílias sempre trabalharam no campo, como a maior parte da população local. E que aprende-se a lidar com as situações adversas no próprio cotidiano. O conhecimento adquirido pela convivência com os extremos ao longo da história é uma chave que possibilita a resiliência em tempos duros.

Nas machambas (plantações), conversamos com alguns trabalhadores que também reforçaram esse entendimento: a experiência e sabedorias adquiridas com o tempo, de geração em geração, são a base para todo o trabalho, acima de quaisquer outras técnicas. Seja para escolher os produtos que serão plantados em cada época, de acordo com a expectativa climática; para encontrar as melhores áreas, de preferência próximas ao Incomati, o grande rio que cruza toda a zona; ou mesmo para buscar soluções de combate a problemas inesperados.

Aos pés do que me pareceu uma figueira (embora eles mesmos não soubessem definir muito bem), um dos trabalhadores falou de outra chave para lidar com os efeitos cada vez mais intensos do clima, que confesso ter ficado um pouco surpreso, embora faça todo o sentido: a comunicação e aprendizagem via redes sociais. É o terceiro ponto do tripé que abriu o texto.

Não fiquei surpreso com o uso das redes sociais, pois isso já havia apreendido desde o primeiro instante e especialmente na conversa com a Telma, que relatei na última semana. A comunicação sempre foi crucial nos alertas sobre eventos extremos, desde as rádios comunitárias até as tecnologias mais contemporâneas de informação, como o próprio whatsapp. As pessoas se falam, se comunicam, trocam informações, assim o é “desde que o mundo é mundo”.

O que achei mais interessante foi outra finalidade de uso das redes, que este mesmo trabalhador me explicou: a busca por soluções desenvolvidas por outras comunidades, às vezes em contextos muito distantes, para lidar com problemas parecidos aos que eles enfrentam.

“Vemos em outros países como eles fazem e melhoramos aqui também. Aprendemos com a experiência de outros lugares”.

Na sua avaliação, por conta dessa interação, hoje ele tem muito mais ferramentas para lidar com as situações do que há seis anos, quando começou a trabalhar no campo.

Fiquei ainda mais interessado em compreender como as redes sociais e os meios de comunicação, de forma ampla, têm sido aliados para compartilhamento de saberes e o desenvolvimento de soluções. Isso já está no escopo da pesquisa, obviamente, mas a forma espontânea como surgiu na conversa, sem que eu tivesse feito uma pergunta explicitamente nesse sentido, me chamou a atenção e ajudou a iluminar alguns caminhos daqui pra frente.

Qual a próxima parada? Neste momento estamos buscando viabilizar uma viagem para outra província, um pouco mais distante. Espero voltar com um texto bem interessante sobre isso na próxima semana. Mas ainda não consigo cravar. Entre risos, lágrimas, conversas muito sérias e orientações dispersas, Moçambique tem me ensinado que, ainda que seja necessário planejamento, há sempre um grau de incerteza no amanhã. Vou deixar o vento dos encontros me conduzir – eles têm sido bons companheiros.

Avatar de Jader Moraes