Enriquecendo nossas Textuações, o testemunho de Solange Sitoe, uma moçambicana residente no bairro Sommerschield, na capital Maputo, oferece um vislumbre fascinante sobre os ritos de iniciação e passagem do povo Maconde, a riqueza cultural e a força identitária de Moçambique, um país conhecido pelo seu povo acolhedor e grande potencial.
Solage, conhecida e chamada carihosamente de “Sol”, participa em um aplicativo de mensagens, de um grupo de pesquisadores brasileiros em Maputo. Atenciosa e extremamente solidária, Sol divulga programações culturais e acompanhou um grupo de estudantes em diferentes locais onde acontecem os ritos de passagem.
A sua narrativa tece relatos afetivos de tradições, línguas e a importância inegável da sabedoria ancestral, destacando, em particular, a etnia Maconde.
A Identidade Cultural e a Sabedoria Ancestral em Moçambique
Solange descreve a nação como um país “vivo”, acolhedor, e com um imenso potencial, sendo essa visão fundamentada na riqueza da identidade cultural e na coesão social, elementos que ela se empenha em preservar e compreender.
Embora o Português seja a língua oficial, a identidade de Moçambique é forjada em um mosaico de etnias e línguas distribuídas pelas zonas Sul, Centro e Norte. Solange, além de falar Português, domina parcialmente a sua língua materna, o Xichangana (falado pela etnia Tsonga na Zona Sul), e demonstra familiaridade com outras línguas importantes, como o Emakhua (dos Macuas, uma das maiores etnias do Norte) e o Gitonga.
A manutenção dessa diversidade linguística é considerada uma “bênção” por Solange. Ela vê nos seus avós, muitos dos quais não falam Português, verdadeiras “bibliotecas vivas”, guardiões do vasto conhecimento e dos costumes. Este respeito pela sabedoria ancestral é um pilar cultural, que opera como contraponto essencial à pressão da globalização pela adoção de línguas estrangeiras.
Os Maconde: Resistência e Ritos de iniciação e Passagem
Nesse vasto panorama cultural, a etnia Maconde (ou Makonde) ocupa um espaço especial. Os Macondes são um povo Bantu que habita o planalto que se estende do norte de Moçambique, principalmente em Cabo Delgado, até o sudeste da Tanzânia. São historicamente reconhecidos pela sua forte identidade cultural e resistência, tendo desempenhado um papel crucial na Guerra Colonial, onde a venda da sua arte financiou a luta pela independência (FRELIMO).
A imersão de Solange na cultura Maconde começou em 2007*, após conviver com meninas que tinham passado pelo rito de iniciação. Os ritos de iniciação e passagem anuais são centrais para a comunidade, atuando como uma instrução de passagem da vida de criança para a vida adulta.
Durante este período, meninos e meninas para por uma imersão de preparação nos costumes e valores da comunidade:
- Transição: Instrução da vida de criança para a adulta.
- Ensinamentos: Respeito aos mais velhos e preparação para o casamento.
- Socialização: Orientações sobre como interagir e contribuir com a sociedade.
Arte e Espiritualidade: O Legado Maconde
A identidade Maconde é expressa através de uma arte de reconhecimento mundial. A dança Mapico, um património mundial, é um dos símbolos mais fortes da etnia, notável pelo uso de máscaras em rituais de iniciação masculina.
Além da dança e da música, os Macondes são célebres pelas suas esculturas em pau-preto, que os tornaram mundialmente famosos e que abordam temas profundos da sua filosofia de vida, como:
- o Ujamaa, que simboliza a vida em comunidade e a coesão de grupo, e
- o Shetani, que representa os espíritos e o reino invisível.
Outros traços distintivos incluem as tradicionais tatuagens faciais das mulheres e a sua língua própria, o Shimakonde completam este rico patrimônio que Solange busca preservar.
Preservando as Raízes para o Futuro
O que move Solange é a cultura e o esforço para entender em suas próprias palavras: “quem eu sou, de onde eu venho, quem foram os meus”. Uma jovem moçambicana dedicada a garantir que as gerações vindouras sigam essa linhagem, respeitando as passagens, a história e o orgulho moçambicano.
A história de Solange é um convite irresistível a explorarmos a profunda identidade cultural de Moçambique, onde a força da tradição não é um obstáculo ao futuro, mas sim o seu alicerce.
Assista a entrevista realizada no território da antiga igreja militar, onde ocorrem os rituais de iniciação dos Malonde.
* No vídeo Solange menciona 2019 como data de início do acompanhamento dos ritos de passagem, após assistir o vídeo editado notou o equívoco e pediu a correção da informação que segue atualizada neste texto.
REFERÊNCIA
ASSUNÇÃO, Helena Santos; SILVA, Aline Beatriz Miranda da. Reflexões sobre o lobolo e os ritos de iniciação femininos em Moçambique a partir de uma perspectiva da interseccionalidade. In: MUNDOS DE MULHERES & FAZENDO GÊNERO 11, 2017. Disponível em: https://www.dicio.com.br/os-erros-mais-comuns-no-mundo-do-trabalho/. Acesso em: 20/11/2025.






