Tag: mudança climática

  • Projeto África | Doc.

    Projeto África | Doc.

    Comunicação: Fome, uma Ponte para a África 

    O tema central do vídeo é a experiência humana. A partir de entrevistas realizadas, sobretudo, com jovens, os depoimentos materializam a esperança de um futuro possível apesar das muitas crises climáticas que enfrenta a África. O foco é a intersecção entre comunicação, fome e desastres climáticos/ambientais no continente africano. O projeto procura refletir sobre como a crise climática e a fome agravam o êxodo populacional e a vulnerabilidade, mas podem também revelar possibilidades de existência e re-existência a partir de modos de vida e pensamentos locais, muitas vezes encobertos pelo silêncio.

    Ficha técnica

    Captação de imagens e áudio

    Américo Vermelho e Jader de Moraes

    Edição e trilha sonora

    Américo Vermelho


  • Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique

    Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025), de autoria de Alexandre Dinis Savale e Daniela Nunes Araujo. Neste artigo buscamos investigar a complexa interseção entre o extrativismo predatório, os desastres ambientais e a mediação comunicacional no Sul Global.

    O estudo debruça-se sobre a crise ambiental na província de Manica, Moçambique, onde a mineração descontrolada de ouro resultou na contaminação crítica de rios vitais por mercúrio e cianeto, comprometendo o acesso à água potável e a segurança alimentar das populações locais. Através de uma análise de conteúdo sinóptica de 21 matérias jornalísticas publicadas em veículos como a Agência de Informação de Moçambique (AIM) e a Deutsche Welle (DW), os autores demonstram como o enquadramento midiático hegemônico priorizou uma perspectiva institucional e securitária. Esta abordagem, focada na resposta estatal e na suspensão de licenças mineiras, tendeu a invisibilizar o drama humano e as vulnerabilidades socioeconômicas daqueles que vivem às margens da exploração.

    A reflexão proposta no artigo corrobora a tese de que a comunicação deve ser entendida como uma “Ciência do Comum”, conforme proposto por Muniz Sodré, atuando como um vetor de resistência e visibilidade para o “outro”. Ao evidenciar o silenciamento de vozes comunitárias e de trabalhadores artesanais (garimpeiros) na grande imprensa, o trabalho reforça a centralidade das ações de comunicação comunitária e alternativa na construção de novos modos de existência e na denúncia da precariedade estrutural que assola territórios africanos e brasileiros.


    O trabalho “Crise Climática, Mineração e Mídia em Moçambique: Análise da Cobertura Jornalística em Manica (Março-Outubro 2025)” foi apresentado na III Conferência Internacional das Ciências da Comunicação e da Informação , sob a égide da Escola Superior de Jornalismo em Moçambique. A pesquisa foi submetida e discutida no âmbito do GT (Grupo de Trabalho): Comunicação, informação e mudanças climáticas , contribuindo para o debate internacional sobre a responsabilidade social da mídia frente às emergências ambientais contemporâneas no continente africano.

  • Textuações

    Textuações

    São narrativas das experiências e existências que se manifestam em gestos múltiplos que revelam, assim, possibilidades de re-existências.

    O corpo (individual/comunitário) torna-se âncora da visibilidade das textuações: a fala, o gesto, a produção de um tempo de vida comum nas experiências do cotidiano. O pensamento não é produzido só pelas palavras, mas pelo corpo em sua vinculação com o entorno ético e existencial, portanto na relação concreta entre homem e natureza. O transbordamento se faz pelo corpo. As textuações não se limitam aos discursos entre locutor e ouvinte, revelando-se também pela memória, pela construção imaginativa, pela relação do homem com a natureza (profundamente inóspita muitas vezes). Desta cosmografia nasce um pensamento que produz e revela textuações sobre mundos possíveis.

    Do desconhecimento sobre os mundos e os fins na era do Antropoceno, onde Gaia passa a ser pensada como corpo pluridimensional, coloca-se, então, reflexões oriundas da África (sempre envolta em muitos silêncios), já que uma das faces mais perversas das consequências das transformações climáticas é a fome real que se abate sobre os povos desassistidos historicamente e deliberadamente esquecidos. A fome desaba sobre o corpo, que perde forças, impede a ação, produz a paralisação, ou seja, introduz uma fissura irreparável no modo de ser/sentir ancestral desses povos. Assim, diante da fome que se abate sobre seu território, como se colocam frente ao fim, aos fins, aos mundos?

    A ideia central é a partir de mitologias duradouras existentes nos lugares de vivência mostrar mitologias do presente como possibilidade de re-existências. Delas talvez possam surgir outras formas de pensar a existência, a partir de outros sonhos possíveis. Contar histórias e mais histórias que falem desses seres humanos/míticos/presentes/passados/ancestrais/permanentes/imanentes é, podemos afirmar inspirados por Kernak (2020, p. 27), “adiar o fim do mundo”. Contar uma história, por outro lado, coloca em destaque o múltiplo significado do verbo: contar é falar, produzir uma verborragia que religa mundos e tempos, mas também é estar juntos, “contar com o outro”. Contar, por fim, é somar, multiplicar, realizar operações que podem ser mais ou menos, mas para as quais podemos produzir a multiplicação. Se pudermos fazer isso, estaremos igualmente “adiando o fim”.

    A partir das textualizações recolhidas e produzidas, constrói-se textuações, ou seja, modos de percepção de vidas conectadas em outras bases, do qual o princípio de “poder contar uns com os outros” pode ser a liga entre existências passadas e futuras. É pela criatividade, pela poesia, dos que não são iguais. Somos diferentes, mas podemos nos direcionar para pontos de contato, para diálogos presentes-passados, para a denúncia das condições de existência, para a comunicação das possibilidades das diferenças para construções de ações e imaginações suplantando um presente, por vezes, por demais cruel.

    O resultado está no ato escutar/registrar histórias atemporais, filosofias imemoriais, memórias da re-existência, nas quais a transcendência sobre determina a imanência, falando das dores e das esperanças, das tragédias e da alegria, de um mundo possível como ação/textuações. Estas não podem ser visualizadas como uma outra mitologia adequada a um presente de medos e incertezas?

    Textuações que emergem da falta, da dor e, tantas vezes, da fome. Sonhar, por vezes, é mais eficiente do que achar que só se pode transformar por ações concretas. Os sonhos nos conectam a outros mundos, outras possibilidades, outros territórios. Que renovam existências.

  • Segurança alimentar em Moçambique, uma análise com Tomas Jane

    Segurança alimentar em Moçambique, uma análise com Tomas Jane

    A segurança alimentar em Moçambique constitui-se, contemporaneamente, como um dos desafios mais complexos no âmbito do desenvolvimento humano e da estabilidade socioeconômica da África Austral. No entanto, para além das métricas estatísticas de escassez, a fome demanda uma análise sob a ótica da Comunicação para o Desenvolvimento.

    Este campo investiga as dinâmicas de mobilização, os fluxos informacionais e as narrativas que sustentam a resiliência das comunidades. A partir da história pessoal e das percepções do Professor Doutor Tomas Jane, coletadas em entrevista realizada me outubro de 2025 em Maputo, propomos uma reflexão sobre como transformar o potencial agrícola em realidade na mesa dos moçambicanos.

    Quem é o Professor Doutor Tomas Jane?

    Tomas José Jane é uma figura central na produção intelectual de Moçambique. Doutor e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), Jane consolidou sua carreira na interseção entre a academia e o compromisso social.

    Como professor associado da Escola Superior de Jornalismo e da Universidade Joaquim Chissano, sua atuação destaca-se em áreas fundamentais:

    • Folk-comunicação: O saber popular como ferramenta de mudança.
    • Marketing Social: Estratégias para o bem-estar coletivo.
    • Comunicação Comunitária: O empoderamento local através da informação.

    Síntese da Entrevista: Comunicação como Chave para a Segurança Alimentar

    Em sua recente abordagem, o Professor Tomas Jane sistematiza pontos cruciais que interligam a abundância de recursos naturais e a persistência da desnutrição. Abaixo, resumimos os pilares centrais da sua visão:

    1. O Paradoxo do Potencial Agrícola

    Jane enfatiza que Moçambique possui terras férteis e recursos hídricos vastos, porém, a segurança alimentar é comprometida pela falta de infraestrutura de escoamento e de tecnologias acessíveis ao pequeno produtor. A comunicação falha ao não conectar o produtor ao mercado consumidor de forma eficiente.

    2. Mudança de Comportamento e Marketing Social

    A fome não é apenas falta de alimento, mas também uma questão de hábitos nutricionais. O professor defende que a comunicação deve atuar na educação alimentar, utilizando o marketing social para desmistificar preconceitos e promover o consumo de produtos locais altamente nutritivos que são, por vezes, negligenciados.

    3. A Folk-comunicação no Meio Rural

    Para que as políticas de desenvolvimento funcionem, é necessário falar a língua do povo. Jane destaca que a comunicação comunitária (rádios e líderes locais) é o veículo mais eficaz para transmitir técnicas de cultivo e alertas de resiliência climática, respeitando a cultura e o contexto espiritual de cada região.

    4. Empoderamento e Políticas Públicas

    A segurança alimentar exige que o cidadão deixe de ser um receptor passivo de ajuda humanitária para se tornar um agente ativo. A comunicação é o instrumento que permite a participação pública e a cobrança por políticas que garantam o acesso digno ao alimento.

    Perspectivas para Romper o Ciclo da Fome

    O professor, que vivenciou as limitações da colonização e superou barreiras econômicas para construir uma trajetória acadêmica exemplar, acredita que a educação é a base da libertação.

    O problema central desta investigação reside na persistente lacuna entre o potencial agrícola moçambicano e a fome cotidiana. Para Jane, romper este ciclo exige um esforço coordenado onde a técnica e a comunicação caminhem juntas, garantindo que a informação sobre como produzir e conservar alimentos chegue às mãos de quem mais precisa.


    Assista a entrevista realizada em 21 de outubro de 2025 no escritório do prof. Dr. Tomas Jane, em Maputo, capital de Moçambique.